quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

cOpoCeANOncheu


Hoje é um daqueles dias em que o copo encheu, e a chuva que não para a quase um mês transbordou. E o solo coberto de lama viu brotar a primeira frase do ano, porque hoje é o dia em que o copo encheu.
Justo na quinta com cara de sexta, onde o som do vizinho parece estar mais alto, alto a ponto de eu já não ouvir mais o meu, e então minha cabeça gritar, balbuciar e enxotar pra fora da boca qualquer palavra que possa ser dita enquanto eu escrevo. E lendo em voz alta eu vejo que hoje é o dia em que o copo encheu.
No dia onde a capela é o bastante pra ser minha trilha sonora, e eu parei por uma hora pra me atualizar, e ver a vida dos outros passando enquanto não tenho tempo de processar a minha, e ver os músicos cantando enquanto o meu violão esta jogado no canto do quarto, e ver os bêbados esvaziando seus copos, enquanto só com muito custo, eu consegui notar, que o meu copo encheu.
E eu paro o tempo todo, faço hora, mudo o foco, finjo ser o curso do vento a construção do meu texto, e penso no cenário em que brota poesia, e penso se de baixo da água, que fez mar uma pequena cidade, possa haver um peixe poeta, uma estrela poetiza, ou um copo que encheu.
Um que não esta meio vazio, nem meio cheio, um copo que encheu!

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Locotomia #13



Eu me perdi!
No meu caminho sem chão e que não me leva a lugar algum...
Mesmo tendo jurado que nunca mais eu iria me perder.
Entretanto, minha palavra é tão falsa, quanto a este caminho que insisto percorrer
e quanto a este mundo em que finjo viver.
Então, me perdi outra vez!

Eu me vi caindo...
Tropeçando em minhas próprias pernas.
Mesmo tendo jurado que nunca mais me veria caindo assim.
Entretanto, minha visão é tão turva quanto a justiça dos homens.
Logo, caí outra vez!

Contudo, resolvi fugir.
De todas as vozes, braços e pernas que me cercavam,
e - essencialmente - de um tolo que insistia em me seguir,
principalmente quando minha imagem refletia em algum lugar.
No entanto, minhas pernas estavam cansadas de tropeçar nelas mesmas,
minha visão já estava começando a escurecer, e por mais que eu me esforçava,
esse tolo sempre me alcançava...

Logo, me perdi mais uma vez...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Paródia de Cícero


Morremos soterrados pelo silêncio das palavras que eram mais simples de dizer, e tristemente morremos sem saber. Que ao contrário do que aquela canção dizia, “ainda fazem pessoas que enxugam nossas lágrimas”, e as minhas por falta de afago inundaram o chão.

A sete palmos não vejo mais seu rosto, e vejo que já se passou tempo de mais.

Não a palavra que me desenterre, e já se passou tempo de mais.

E não vejo como como quebrar o silêncio que ficou no passado, e que eu notei, que já se passou tempo de mais.

Morri engasgado, com um discurso inteiro na garganta. Repleto de desculpas, recheado de “obrigado”, bordado de eu te amo. E foi tudo comigo, pra dentro do chão, em segredo, e eu me tirei a chance de saber se fui perdoado, se fui reconhecido ou se houve um eu também.

Virei semente, eu e meus segredos, do que veio a ser frutas da árvore que me tornei.

Da cerejeira que não para de crescer, e que batizou a rua, e que fez sombra pra outras pessoas, que resolveram falar, cuspir ao vento, e que não morreram, engasgados, soterrados pelo silêncio.

Se não tivesse, passado tempo de mais, eu diria.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Pra você, o meu sorriso


"Eu sonhei com as cores cintilantes dos filmes de Chaplin e pintei um mundo novo.
Eu ouvi as vozes do cinema mudo e compus uma canção".

-Me venda suas alegrias vendedor de poesias, me traga da barraca de desejos o meu sorriso. Hoje eu quero ser capaz de ficar feliz por uma frase, e me embebedar por um texto.
Me enalteça, me entorpeça, me iluda, dê me o céu em gotas pra que eu possa plantar, meu jardim de nuvens, meu chão de pássaros.
Parcele os meus desejos, dê me pouco a pouco a ilusão de ser. Dê me a vontade, de viver dos meus sonhos.
Entregue-me meu real imaginado em forma de fotografia, me permita contemplar meus desejos em forma de paixão, transforme minha existência vã em um filme de Chaplin, colora minha vida com cores cintilantes, ensurdeça meus ouvidos com uma fala muda, me acorde...Pois eu sonho com meus sonhos, e ao acordar trago um novo eu, que desperto, deseja colorir um novo dia.
Visto a roupa, enfrento o sol, consumo o tempo, volto pra casa, me alinho ao espelho e repito, me olhando nos olhos, veementemente apaixonado:

"Eu sonhei com as cores cintilantes dos filmes de Chaplin e pintei um mundo novo.
Eu ouvi as vozes do cinema mudo e compus uma canção".

E volto pra cama.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Um Canto Para a Chuva


Deixe a chuva cair!
Eu não ligo mais de chegar em casa encharcado.
Sim! Deixe-me cair com a chuva!
O céu está tão lindo assim nublado!
Quem sabe embaixo de toda essa água eu não me sinta mais ilhado?!

Eu me perdi na chuva, e joguei fora meu guarda-chuva.
Embriaguei-me com a água ácida e com o barulho dos trovões.
Não me importo em acordar e não me sentir mais limpo,
No entanto, o sol da manhã sempre insiste em me secar!

Enxugo-me com o orvalho das plantas,
Afogo-me em poças d'água,
Deixo as enchentes me sucumbir,
E espero o raio mais forte do sol me evaporar...

Para, assim então, eu poder com a chuva outra vez cair!