
Afogado em meus clichês eu cuspo em minha face, eu me renego, eu me deserdo, eu me desprezo.
Eu procuro desesperadamente uma maneira de dizer que não sou eu, eu procuro uma imensa e esmagadora palavra que me cale.
Eu procuro o sentido do que quero dizer.
Eu apago as luzes, eu ligo o som, eu me acomodo na cadeira e espero, espero que o sangue bombardeado em meu peito percorra a extensão do meu tronco, penetre em meus membros, e transborde por meus dedos. Traduzindo o que eu não consigo ler, criando símbolos que expliquem esse silêncio que se instaurou em mim, descrevendo a face de quem matou o meu poeta.
Acho que há tempos eu venho escrevendo em silêncio, postando cartas pra você sem escrever no envelope o endereço do meu destinatário. Eu venho guardando pra você meu bem, uma muda palavra de amor, que tenha mais peso do que um eu te amo, que tenha mais valor que o amor de um cristo.
Eu amo você, meu grande amigo,
Meu pedaço de papel
Em branco
Que eu rabisco em desespero
Afogado em meus clichês...