terça-feira, 14 de maio de 2013

Então... Ainda Vejo Mais Vidro



Deixe um pouco da sua dor pra mim, porque hoje eu tenho que disfarçar, aquele meu sorriso de que não estou nem ai, é tempo de lágrimas.
É tempo de ficarmos juntos, e ao mesmo tempo sozinhos, com a maquiagem borrada e a camisa por passar, frente ao espelho que nos responde com desgosto.

Deixe-me vela através deste vidro embaçado do banheiro! Quem sabe assim eu consiga ver outra vez em tí, tudo aquilo que eu não consegui sentir, e um promissor 1/654975478 avos desse meu desbotado sorriso possa resplandecer, como se o vidro falasse, como se o reflexo fosse concreto, como se eu realmente tivesse você.

Então, daí perguntas "e ti... O que deixas pra mim?"
Bem, não posso/quero deixar outra melodia estrela-cadente, não quero que se desintegre mais uma vez em tuas mãos...
Entretanto, deixo-a uma singela nota de Si menor dissonante, da passagem mais esquecida do estribilho da nossa música favorita, em um recipiente sólido amorfo, para que guardes em teu coração.

Porque...(?)



























Droga! Eu realmente achei que o vidro falasse...

terça-feira, 23 de abril de 2013

Circular



Devo ter perdido a caneta em algum lugar, em alguma daquelas gavetas escondidas, emperradas, do velho móvel, da casa velha. A velha mobília que não vê mais cera, que não guarda mais o que é útil e virou cofre dos restos de vida que deixei pra trás.

Certamente ta lá a caneta, e o projeto de poeta esquartejado nos potes. Funesto ficou o eu, ludibriando em passos bêbados, ganhando linhas e linhas, parágrafos, a fim de rememorar a frase que eu falei pra ti e te fez chorar, ou a frase com que sequei teus olhos.
Então toca uma música e sinto, enquanto houver canções haverão amores, e enquanto houver amores haverão canções, e nesse efeito cíclico, circular, eu envolvo o texto e percebo que enquanto o mundo girar haverá poesia.
Com rimas, sem rimas, com bordas parar decorar, sobre amor, sobre a vida, sobre a própria poesia. Escreveremos os pássaros, escreveremos as cores, coloriremos com a, com o b, com o c, o mundo pintado em alfabeto.
O sonho colorido de um pintor, que me encantava, o mestre Tom...
Que o mundo acabe, que caiam palavras do céu, e todos se encharquem, se molhem, se banhem, se afoguem  nesse dilúvio, nesse mar literário, onde navegam os navios, que eu rabisquei, alguém afundou e boiaram os tripulantes.

Porque ainda há música, e eu quero Amar,
Ainda há amor, e eu quero o Beijo.
Ainda há poesia e eu vou Cantar, todas as letras que restaram, desta poesia molhada com as palavras que caíram do céu.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Metalcastia

Gotas de pensamentos...
Se estilhaçam na escuridão de minha mente ametal.
Resquícios de sentimentos (assentimentos)...
Se embaralham com minha auto-suficiência utópica, meu silício.

Então eu dirijo... Em alta velocidade sem olhar para trás.

Então dirijo...  Me esqueço nas voltas e curvas fechadas da minha mente.

Então dirijo... E através dos limites de um traçado qualquer numa textura de um papel em branco...

Então dirijo... Chego ao meu lugar nenhum de sempre. Meu Pamir!

Montanhas de silêncio...
Foram minhas maiores conquistas depois dessas insistentes (desesperadas) conversas mudas comigo mesmo.
E enquanto um mar de desilusões,
afogam todo meu ego, meus ouvidos e minha boca todos os dias.

Só me resta navegar... E com a minha fiel tripulação de palavras e sentimentos vazios - meus glóbulos cinzas.

Então navego... à espera deste oceano de tristeza partir-se outra vez,

Então continuo a navegar... Chego meu ápice de um pequeno pigmento de lucidez nesse maremoto soturno,

Então navego... E me perco no meu oceano de ferro fundido.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Terminal Final


Cara pseudo inteligente...
Como estás?
Olhe para trás...
Para onde pretendes ir daqui?

Sigo contando teus passos na areia
que, como sempre, não levam à lugar algum
e se desfazem contínua e contiguamente no meio do caminho.

Percebo que continuas a trocar falsos sorrisos
por migalhas de sentimentos, à espera de uma moeda de
felicidade escapar em um troco.
E quando a desejada moeda aparece, logo percebe-se que a mesma é falsa.

Tuas palavras ditas, malditas, que sempre caem no chão,
e quem as pisa, se machuca dolorosamente.

Talvez o teu último trem já tenha partido,
e se perdestes no terminal final à espera de um de um próximo,
o qual, que nunca vai chegar!

Entretanto, antes de mergulhares neste mar de pensamentos sórdidos,
por favor, me responda ó falso inteligente!

Para onde tu vais?

sábado, 26 de janeiro de 2013

Cidade

Eu virei a rua, e de repente me dei conta que havia atravessado os limites, rompido a barreira.
A cada passo que eu dava, a cada flexão dos joelhos, mais e mais a cidade me absorvia.
Como em um mergulho, eu de olhos bem abertos tentava observar os corais.

E de baixo dos viadutos estavam entocados os soldados de rua, com uniformes modestos, sem medalhas para enaltecer, emaranhados em barricadas de papelão, numa estratégia impensada, apenas sincera. Atirando lembranças, choques visuais, desespero, numa luta Quixoteana, contra moinhos de vento em que as pás são a família, o trabalho, a igreja...


E em mais alguns passos os semáforos se fecharam e abriram alas para os malabaristas de corações. Corações inflamados, apaixonados, num palco que não censura artistas, não classifica, não condena, não segrega. E após um a um estarem todos em teus braços, as sementes lhe foram jogadas no chapéu.

E no verde, os ciclistas se foram, levando em si a emoção de dizer não, de viver o boicote, de negar o comum, e a brisa parecia servir de combustível, ao mesmo tempo de incentivo. E a semente jogada no chapéu parecia agora estar brotando em seus ombros, formando a copa, que há de proteger.

E ao passar por uma rua inibida de sua maior essência (transitar), encontro máquinas ferozes, batendo num ritmo engessado, numa nota atonal (se é que isso é possível),  demolindo a manta asfáltica, prometendo construir, numa anedota alá Tom Zé em que destruir constrói e confundir explica.
E em cada caçamba se perdia um pouco mais das pegadas dos pés cansados (de quem trabalhou de mais), dos pneus gastos ( de quem dirigiu de mais), das gotas da chuva que causou estragos num bairro (em que choveu de mais), e em outro bairro refrescou um casal durante o beijo ( que se amou de mais).

E bem ali eu parei, pra assistir o par que sobreviveu as pancadas das pás do moinho, que emprestaram seus corações inflamados, que arremessaram as sementes no chapéu e sentiram a brisa tocar-lhes o rosto. Que se destruíram e se construíram, que deixaram pegadas, e que se beijaram.

Mais alguns passos, e eu fui embora!