quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Ponto(s)

No banho, me pego pensando que queria te dizer que eu já consigo passar o sabão no meu rosto.
Enquanto me enxáguo, penso naquele canal de humor português que eu queria te mostrar.
Enquanto me enxugo, penso na vontade de te dizer coisas sobre os países que eu visitei.
Enquanto eu visto a roupa, eu penso nas formas que eu poderia usar para pedir pra trabalhar com você em algum filme.
Amarro os cadarços enquanto reflito sobre os aviões que vi pensando no quanto você ia curtir isso.

Saio de casa.

Caminho alguns quarteirões e lembro que não te disse adeus. Não pus ponto final. Nossa conversa ficou assim, na reticências.
Pra mim era vírgula, um respiro, e eu continuei (e ainda continuo) produzindo pautas pra uma conversa que não teremos mais.

Só há um ponto onde eu insisto ver três...

domingo, 17 de janeiro de 2016

Antropofássaros

Será que sangram os mais frágeis?

Ou serão os fortes aqueles que conseguem deixar seus pedaços para trás?

E se as aves comerem os dentes que largamos para marcar o caminho de volta?

E se o vento o arrastar para outro horizonte?

Será que vão nos encontrar?
Será que vão vir nos salvar?

Então sigamos, para a terra onde cavaremos nossa própria cova e nos lançaremos para que as aves não comam de vez os nossos corpos.

Para que assim, capengas e desmontados, sigamos fingindo pra todos que estamos bem.

Que morramos sós, para frisar que é da mágoa e do ressentimento que provém toda nossa essência.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Retalho

Hoje eu joguei alguns papéis foras,
Naquele tradicional ritual de purificação,
Onde se vai o que não serve mais, e fica o vazio pra se encher do que também não servirá.

E acabo de dar mais duas linhas pra um rascunho não publicável e o retomo com coragem após ser encharcado pelo som de um Alt-J qualquer. E prossigo:

As vezes a vida parece não caber nos meus ombros
E cai pelos lados
Acontece quando eu me apequeno
e que me faltam as costas largas
Ai me inteiram com alguns centímetros. 175 deles talvez (não sei se acredito). E você novamente toma coragem pra por sobre os ombros todas as montanhas de minas; já me diria o poeta alagoano.

A vida é meio isso. Um retalho, um retalho de episódios descompassados, as vezes costurados, as vezes não. Um tecido de trapos, tecido à várias mãos. Pra nos cobrir do frio existencial, naquele deserto onde nosso avião de piloto solitário cai vez ou outra.

É preciso ter com o que cobrir. E é bom que a coberta seja grande. Pra cobrir 185 centímetros (talvez, eu realmente não sei se acredito).

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Revolução dos Bichos

Não dá pra dizer que apostamos no cavalo errado. Ainda que tenha havido alguns tropeços ou uma perna quebrada, precisamos lembrar que ele liderou o páreo por tempo demais (ainda que pouco, qualquer tempo conta).

Não é a exclusão da corrida que o demove do título de sanção, porque mesmo se as pás tivessem parado de rodar, as pedras do moinho foram levadas por ele.

E moeu grãos.
E fez farinha.
E haja farinha.

Não se trata de errar, se trata do tamanho do tempo...

Meio

Um homem de estatura mediana
De classe média
Que mora no centro
De uma cidade metropolitana
Que vota, e em partidos de centro
E curva-se diante de um deus não tão severo e não tão brando

Um homem meio nunca saberá
Que existe vida nos lados...