A cada passo que eu dava, a cada flexão dos joelhos, mais e mais a cidade me absorvia.
Como em um mergulho, eu de olhos bem abertos tentava observar os corais.

E em mais alguns passos os semáforos se fecharam e abriram alas para os malabaristas de corações. Corações inflamados, apaixonados, num palco que não censura artistas, não classifica, não condena, não segrega. E após um a um estarem todos em teus braços, as sementes lhe foram jogadas no chapéu.
E no verde, os ciclistas se foram, levando em si a emoção de dizer não, de viver o boicote, de negar o comum, e a brisa parecia servir de combustível, ao mesmo tempo de incentivo. E a semente jogada no chapéu parecia agora estar brotando em seus ombros, formando a copa, que há de proteger.
E ao passar por uma rua inibida de sua maior essência (transitar), encontro máquinas ferozes, batendo num ritmo engessado, numa nota atonal (se é que isso é possível), demolindo a manta asfáltica, prometendo construir, numa anedota alá Tom Zé em que destruir constrói e confundir explica.
E em cada caçamba se perdia um pouco mais das pegadas dos pés cansados (de quem trabalhou de mais), dos pneus gastos ( de quem dirigiu de mais), das gotas da chuva que causou estragos num bairro (em que choveu de mais), e em outro bairro refrescou um casal durante o beijo ( que se amou de mais).
E bem ali eu parei, pra assistir o par que sobreviveu as pancadas das pás do moinho, que emprestaram seus corações inflamados, que arremessaram as sementes no chapéu e sentiram a brisa tocar-lhes o rosto. Que se destruíram e se construíram, que deixaram pegadas, e que se beijaram.
Mais alguns passos, e eu fui embora!