Sinto não estar escrevendo, tecendo poesia, criando um Ballet de palavras, ou qualquer outra coisa bonita. Percebo estar apenas exercitando a musculatura dos dedos, escrevendo em voz alta, com voz rouca de quem esta na casa escura, batucando ao som de Jon Brion, até que alguém chegue, ascenda a luz, e me faz constatar que companhias são contraproducentes nesse caso.

E vou alternando as telas do computador, entre uma prosa saudosa, um texto embaralhado, um assunto melancólico, uma poesia terapêutica.
E descubro o eu lírico, o meu maior psicólogo, então descarto a precoce ideia de recorrer a um profissional, e ter de pagar para contar minhas pilhérias, sustento a hipótese de que minha cadeira é o meu divã, e a tela meu maior ouvinte.
Agrego valor ao monitor, o que revela e suporta meu soneto que renega a estrutura, o que ilumina o quarto e apontaria uma xícara se aqui houvesse uma.
Agrego valor ao texto, que me esvazia, me extravasa, dialoga comigo.
Agrego valor a prosa, que me afaga, me acaricia, me faz bem.
Agrego valor ao Jon Brion, que me surpreende, me embala, me acomoda numa camada sonora.
E alguém acende a luz, e eu consigo abraçar o passado, toca-lo, velo personificado, e isso se torna producente, aconteceu por acaso, mas me rendeu a última frase do texto.